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publicada n'A Falecida número três |

seleção de poemas e texto de José Luís Gomes - Foto: divulgação

Antonin Artaud (1896-1948) desde cedo apresentou problemas de saúde e neurológicos. Aos 24 anos começou a tomar tintura de ópio para aliviar dores de cabeça. Tornou-se dependente. Foi internado diversas vezes. Sofreu vários tratamentos para loucura(!). Autor de teatro e cinema, teórico do teatro e autor de peças teatrais, poemas, ensaios, cartas (seu meio de expressão preferido).
Artaud questionou e subverteu a noção de LOUCURA em seus textos, como em "Van Gogh: O Suicidado Pela Sociedade".
Seus últimos poemas são sucessões de palavras sem sentido:
| potam am cram katanam anankreta karaban kreta tanaman anangtera konaman kreta e pustulam orentam taumer dauldi faldisti taumer oumer tena tana di li kunchta dzeris dzama dzena di li |
farfadi ta azor tau ela auela a tara ila |
Artaud, o existencialista do desespero. Poetas e críticos afirmam que Artaud ampliou a visão de Rimbaud, do poeta vidente. Um artista francês chegou a afirmar que ARTAUD era a reencarnação de RIMBAUD e seu sucessor espiritual.

Artaud foi encontrado morto no quarto de um sanatório onde estava internado. Versões para sua morte: câncer no reto (a oficial), intoxicação com heroína e morfina ou suicídio.

"Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida apenas assou uma das mãos e, fora isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião. Num mundo no qual diariamente comem vagina assada com molho verde ou sexo de recém-nascido flagelado e triturado, assim que sai do sexo materno. E isso não é uma imagem, mas sim um fato abundante e cotidianamente repetido e praticado no mundo todo.
E assim é que a vida
atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha
atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura
crônica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem, mas sim
o mundo que se tornou anormal), proposital desonestidade e notória
hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma
linguagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma
primitiva injustiça; em suma, de crime organizado. Isso vai mal porque a
consciência enferma mostra o máximo interesse, nesse momento, em
não recuperar-se da sua enfermidade.
Por isso, uma sociedade infecta inventou a
psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por
algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de
adivinhação a incomodavam.
E o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser cúmplices em algumas imensas sujeiras. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis."
| KRÉ KRÉ PEK E PTE |
TUDO ISSO DEVERÁ SER ARRANJADO MUITO PRECISAMENTE NUMA SUCESSÃO FULMINANTE |
PUC TE PUK TE LI LE PEC TI LE KRUK |
"Quem sou eu? De onde venho? Sou Antonin Artaud e basta que eu o diga Como só eu o sei dizer e imediatamente hão de ver meu corpo atual, voar em pedaços e se juntar sob dez mil aspectos diversos. Um novo corpo no qual nunca mais poderão esquecer. Eu, Antonin Artaud, sou meu filho, meu pai, minha mãe, e eu mesmo. Eu represento Antonin Artaud! Estou sempre morto. Mas um vivo morto, Um morto vivo. Sou um mortoSempre vivo. A tragédia em cena já não me basta. Quero transportá-la para minha vida. Eu represento totalmente a minha vida. Onde as pessoas procuram criar obras de arte, eu pretendo mostrar o meu espírito. Não concebo uma obra de arte dissociada da vida. Eu, o senhor Antonin Artaud, nascido em Marseille no dia 4 de setembro de 1896, eu sou Satã e eu sou Deus, e pouco me importa a Virgem Maria.
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