Matéria publicada n'A Falecida número três
janeiro/fevereiro de 1992

seleção de poemas e texto de José Luís Gomes - Foto: divulgação

Antonin Artaud (1896-1948) desde cedo apresentou problemas de saúde e neurológicos. Aos 24 anos começou a tomar tintura de ópio para aliviar dores de cabeça. Tornou-se dependente. Foi internado diversas vezes. Sofreu vários tratamentos para loucura(!). Autor de teatro e cinema, teórico do teatro e autor de peças teatrais, poemas, ensaios, cartas (seu meio de expressão preferido).

Artaud questionou e subverteu a noção de LOUCURA em seus textos, como em "Van Gogh: O Suicidado Pela Sociedade".

Seus últimos poemas são sucessões de palavras sem sentido:

 

potam am cram
katanam anankreta
karaban kreta
tanaman anangtera
konaman kreta
e pustulam orentam
taumer dauldi faldisti
taumer oumer
tena tana di li
kunchta dzeris
dzama dzena di li
 
farfadi
ta azor
tau ela
auela
a
tara
ila

Artaud, o existencialista do desespero. Poetas e críticos afirmam que Artaud ampliou a visão de Rimbaud, do poeta vidente. Um artista francês chegou a afirmar que ARTAUD era a reencarnação de RIMBAUD e seu sucessor espiritual.

 

Artaud foi encontrado morto no quarto de um sanatório onde estava internado. Versões para sua morte: câncer no reto (a oficial), intoxicação com heroína e morfina ou suicídio.


    "Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida  apenas assou uma das mãos e, fora  isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião.  Num  mundo no qual diariamente comem vagina assada com molho verde ou sexo de recém-nascido  flagelado e triturado, assim que sai do sexo materno.  E isso não é uma imagem, mas sim um fato abundante e cotidianamente repetido e praticado no mundo todo.

    E assim é que a vida atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha  atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura crônica,  inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem,  mas sim o mundo que se tornou anormal),  proposital desonestidade e notória hipocrisia,  absoluto  desprezo por tudo  que  tem uma  linguagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça; em suma, de crime organizado.   Isso vai mal porque a consciência enferma mostra o máximo  interesse,  nesse  momento,  em não recuperar-se da sua enfermidade.   Por isso, uma sociedade infecta  inventou a psiquiatria,  para defender-se   das  investigações feitas por algumas  inteligências extraordinariamente lúcidas,  cujas  faculdades de adivinhação a incomodavam.


   E o que é um autêntico louco?   É um homem  que preferiu ficar louco,  no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada  idéia superior  de  honra humana.   Assim,  a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser cúmplices em algumas  imensas sujeiras.   Pois o louco é o homem que a sociedade não quer  ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis."

KRÉ
KRÉ
PEK
E
PTE
TUDO ISSO DEVERÁ

SER ARRANJADO

MUITO PRECISAMENTE

NUMA SUCESSÃO

FULMINANTE
PUC TE

PUK TE

LI LE

PEC TI LE

KRUK

"Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

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